
Por Ana Jácomo
Viver dá trabalho, me disse um amigo, outro dia. Dá, sim. Dá, também. Desconfio até que tem dado mais, ultimamente. Tenho a impressão de que as sombras todas, individuais e coletivas, estão vindo à tona numa celeridade inédita. Otimista que sou, acredito que é para transformar, mas haja luz para nos entendermos com elas. Em nenhum outro momento da minha vida, eu vi tanta crueldade, tanta expressão da ignorância, tanta feiúra de alma. Vivemos uma crise muito séria de empobrecimento dos valores humanos mais básicos. E não é lá longe, não. É tudo muito perto da gente, até porque, de uns tempos pra cá, o mundo parece estar no quintal da nossa casa. Querendo ou não, somos informados, diariamente, sobre fatos de fazer o coração se arrepiar todinho de espanto. Dá trabalho, sim.
Mas, quando resolvo trazê-las, o dono da barraca também precisa de dinheiro, geralmente acabo escolhendo o girassol, a minha flor preferida. Gosto de todas elas, do jeito de cada uma, aprecio, aplaudo com o meu encanto, agradeço, mas o girassol tem a minha predileção. Além da exuberância da cor, da vividez, do formato, acho linda essa metáfora que ele nos sugere: girar, crescer, na direção da luz. Apesar e por causa das nossas sombras todas e das sombras todas do mundo, acredito que é também para realizar isso que estamos juntos nesse barco. O girassol, para mim, simboliza essa meta espiritual da jornada humana. Ele me lembra o que também faço por aqui, eu que tantas vezes ainda esqueço.

Naquela manhã lá do primeiro parágrafo, eu vi uma flor que nunca tinha visto. Se vi, não me recordo. Tão bonita, que flor é essa, eu perguntei, os olhos embebidos da novidade. Cravínea, o vendedor respondeu. “Leva o ramalhete e escolhe uma por minha conta”, sugeriu querendo fazer negócio. Eu trouxe. Vim pela rua toda prosa com o tal ramo de flores e, pra não me afastar muito do coração, com o girassol que ganhei pela compra. Cheguei em casa, coloquei no jarro e levei para a sala. Ele me disse que duravam e não mentiu: mais de uma semana. Cada vez que eu olhava para as cravíneas, durante aquele período, era com os olhos felizes de descoberta. Sempre que dou de cara com o novo, eu me pergunto quantas coisas bonitas existem, agora, paralelas à minha vida, sem que eu tenha a mínima ideia. Isso enche meu coração de alegria. E de esperança.
Léo Buscaglia, um psicólogo e escritor muito amoroso, que influenciou a minha juventude e talvez a abordagem dos meus textos, me contou num de seus livros que todas as noites, na hora do jantar em família, seu pai pedia para ele e os irmãos lhe contarem algo que haviam descoberto naquele dia. Eu achei essa ideia maravilhosa, quando li. Continuo achando. Não deveríamos dormir sem termos feito pelo menos uma descoberta. Por mais insignificante que pareça. Naquele dia, eu descobri que existe uma flor que se chama cravínea. É um prazer conhecê-la, cravínea, eu sou a Ana, foi mais ou menos assim.
Quando estamos receptivos, podemos descobrir coisas imperdíveis. Podemos buscá-las ou simplesmente ter o coração aberto para acolhê-las. Um poema, uma música, um alimento, uma palavra, um gesto, um jeito de fazer diferente o que há séculos fazemos da mesma forma, uma habilidade nossa até então ignorada, um detalhe na rua onde passamos todo dia, uma maneira de sorrir que nunca tínhamos percebido naquela pessoa tão amada. Sem a luz da novidade, a vida da gente acaba se transformando num mormaço tedioso. Um prato cheio para os olhos só perceberem a esquisitice nossa de cada dia, a dureza, a aridez, os problemas. Viver dá trabalho, sim. Mas é pra dar alegria, sobretudo, embora a gente tantas vezes demonstre esquecer.
Parei na barraca das flores para finalizar as compras da feira naquela manhã de segunda. O vendedor já me conhece, sempre encerro os trabalhos por lá. “O que vai ser hoje, freguesa?”, é o início do papo. Às vezes, nada. Às vezes, a intenção é somente deixar a vida descansar um pouco, largar as sacolas pesadas no chão, alimentar a alma e, depois, seguir meu rumo mais nutrida. Meus olhos não são econômicos para o que é bonito, duas câmeras castanho-escuras que buscam oportunidades para registrar belezas disponíveis e algumas vezes até encabuladas. E olha que eles são míopes, astigmáticos, e, segundo me disseram, recentemente, já estão um pouquinho cansados. Meus óculos, agora, são multifocais, e minhas lentes de contato uma esquisite só, faz parte das mudanças todas dos últimos tempos.
Viver dá trabalho, me disse um amigo, outro dia. Dá, sim. Dá, também. Desconfio até que tem dado mais, ultimamente. Tenho a impressão de que as sombras todas, individuais e coletivas, estão vindo à tona numa celeridade inédita. Otimista que sou, acredito que é para transformar, mas haja luz para nos entendermos com elas. Em nenhum outro momento da minha vida, eu vi tanta crueldade, tanta expressão da ignorância, tanta feiúra de alma. Vivemos uma crise muito séria de empobrecimento dos valores humanos mais básicos. E não é lá longe, não. É tudo muito perto da gente, até porque, de uns tempos pra cá, o mundo parece estar no quintal da nossa casa. Querendo ou não, somos informados, diariamente, sobre fatos de fazer o coração se arrepiar todinho de espanto. Dá trabalho, sim.
É também por isso, para compensar um pouco essas feiúras todas, para buscar equilíbrio para o olhar, que eu procuro não perder as oportunidades para descobrir e apreciar coisas bonitas. Aquelas que os olhos e o coração veem juntos e aquelas que só o coração pode ver. Nas caminhadas por aí, na conversa fortuita com desconhecidos, no encontro com os amigos, as antenas costumam estar prontas para captar belezas explícitas ou sutis. Com exceção, é claro, dos dias em que a confusão, o cansaço, o medo, me alcançam de tal forma que me desequilibram toda. Quando é assim, tudo fica tão embaçado que eu não consigo ver lindeza nenhuma, por mais reluzente que seja, mesmo que esteja a poucos centímetros de mim. Por seguir essa proposta, paro na barraca das flores, na feira, embora nem sempre tenha a intenção de trazer nenhuma flor comigo, senão no sentimento.
Mas, quando resolvo trazê-las, o dono da barraca também precisa de dinheiro, geralmente acabo escolhendo o girassol, a minha flor preferida. Gosto de todas elas, do jeito de cada uma, aprecio, aplaudo com o meu encanto, agradeço, mas o girassol tem a minha predileção. Além da exuberância da cor, da vividez, do formato, acho linda essa metáfora que ele nos sugere: girar, crescer, na direção da luz. Apesar e por causa das nossas sombras todas e das sombras todas do mundo, acredito que é também para realizar isso que estamos juntos nesse barco. O girassol, para mim, simboliza essa meta espiritual da jornada humana. Ele me lembra o que também faço por aqui, eu que tantas vezes ainda esqueço.

Naquela manhã lá do primeiro parágrafo, eu vi uma flor que nunca tinha visto. Se vi, não me recordo. Tão bonita, que flor é essa, eu perguntei, os olhos embebidos da novidade. Cravínea, o vendedor respondeu. “Leva o ramalhete e escolhe uma por minha conta”, sugeriu querendo fazer negócio. Eu trouxe. Vim pela rua toda prosa com o tal ramo de flores e, pra não me afastar muito do coração, com o girassol que ganhei pela compra. Cheguei em casa, coloquei no jarro e levei para a sala. Ele me disse que duravam e não mentiu: mais de uma semana. Cada vez que eu olhava para as cravíneas, durante aquele período, era com os olhos felizes de descoberta. Sempre que dou de cara com o novo, eu me pergunto quantas coisas bonitas existem, agora, paralelas à minha vida, sem que eu tenha a mínima ideia. Isso enche meu coração de alegria. E de esperança.
Léo Buscaglia, um psicólogo e escritor muito amoroso, que influenciou a minha juventude e talvez a abordagem dos meus textos, me contou num de seus livros que todas as noites, na hora do jantar em família, seu pai pedia para ele e os irmãos lhe contarem algo que haviam descoberto naquele dia. Eu achei essa ideia maravilhosa, quando li. Continuo achando. Não deveríamos dormir sem termos feito pelo menos uma descoberta. Por mais insignificante que pareça. Naquele dia, eu descobri que existe uma flor que se chama cravínea. É um prazer conhecê-la, cravínea, eu sou a Ana, foi mais ou menos assim.
Quando estamos receptivos, podemos descobrir coisas imperdíveis. Podemos buscá-las ou simplesmente ter o coração aberto para acolhê-las. Um poema, uma música, um alimento, uma palavra, um gesto, um jeito de fazer diferente o que há séculos fazemos da mesma forma, uma habilidade nossa até então ignorada, um detalhe na rua onde passamos todo dia, uma maneira de sorrir que nunca tínhamos percebido naquela pessoa tão amada. Sem a luz da novidade, a vida da gente acaba se transformando num mormaço tedioso. Um prato cheio para os olhos só perceberem a esquisitice nossa de cada dia, a dureza, a aridez, os problemas. Viver dá trabalho, sim. Mas é pra dar alegria, sobretudo, embora a gente tantas vezes demonstre esquecer.
Com o tempo, a vista pode até ficar cansada. Complica, de verdade, é quando o olhar fica.
Fotos: Girassol - Claudio Márcio Lopes
Cravíneas - Claudio Marcon
Adorei as fotos! :)
ResponderExcluirMeu abraço,
Ana